Atelier da lp

  1. edna

    Tenho me esforçado para guardar as lembranças.
    No meio do caos que é viver em São Paulo, no outono,
    com duas crianças pequenas, de pulmões frágeis…
    Sempre há um minuto do meu dia que dedico à você.
    Ou você à mim.

    Na cozinha, o vapor da comida sobe e eu inevitavelmente recordo de nós.
    Do teu cheiro, suas habilidades e do seu amor.
    Do Macarrão fresco que você fazia.
    Saía de uma velha máquina de ferro presa na ponta da mesa.
    Aquela mesinha de madeira, que na verdade era de MDF
    e  ficava encostada na parede de azulejos rosa ou bege.
    Qual era mesmo a cor dos azulejos?

    Em dia de massa, colocávamos a mesa mais para o centro,
    porque precisávamos de espaço. E tomávamos conta de tudo.
    Tantos eram aqueles finos fios de macarrão prestes a serem devorados.
    E quantos foram os dias em que eu me perdi contigo naquela cozinha?
    Uma infância inteira.
    Observando seu trabalhar.
    As mãos delicadas e gordinhas que jogavam a farinha sobre a mesa.
    Havia ritmo e diálogo entre nós.
    Era lindo de se ver.

    O Alzheimer levou você e junto as suas receitas.
    Seu maior tesouro, creio eu.
    Não existe ninguém no mundo capaz
    de repetir o sabor da coxinha que a Dona Edna fazia.
    Nem da bala de goma. Perfeita, exata e doce.
    Quando dei conta, você já não queria me contar
    sobre seus segredos e ingredientes.

    Ficou então uma saudade enorme.
    Destempero.
    Uma falta. Um respeito. O silêncio.
    Quebrado pelo barulho das minhas panelas.
    Ando cozinhando, sabe?!
    Quase uma homenagem – diária.
    Enquanto seus bisnetos brigam pela balança no canto da sala.
    Conforto a barriga, encostando no fogão.

    Lavo a louça.
    Faço um bolo.
    Sopa.
    Molho de macarrão.

    Recordo-me de boa parte de seus conselhos.
    Dois dos seus bordões.
    E sorrio sozinha.
    Mas não consigo lembrar da cor dos azulejos.

  2. você | eu | nós

    Sobre este meu amor por você.
    Que estava por aqui.
    Jogado pela casa.
    Espremido na estante de livros empoeirada.
    Ou atrás do sofá.
    Na frigideira suja do seu ovo de manhã.
    Eu percebi a ausência dele.
    Dentro da xícara de café puro que você sempre diz ser muito grande pra mim.
    Enxerguei através do copo de suco de laranja vazio.
    A sua falta.
    Há dias.
    E descobri que preciso desse nosso amor de perto para
    fazer meus dias terem começo, meio e fim.
    É você quem faz meu tempo.
    Que me chama para jantar e depois me arrasta pra cama.
    Eu podia fechar os olhos.
    Eu dormia com os meus pés encostados aos teus.

    Descobri essa minha saudade numa dessas noites frias.
    E chorei bem baixinho para não acordar a tosse deles.
    Deitada no cheiro do seu travesseiro.
    Me dei conta de que sou sua, faz tempo, por vontade própria.
    Mas que agora eu preciso conseguir ser eu sem você por cinco dias na semana.
    Só. Vinte dias no mês.
    Te desejando de longe.

    Eu me arrumo pra você.
    Enfeito- me. Os cabelos.
    Escolho as minhas roupas.
    E a todo instante em que te tive dentro dessa casa,
    acho que me distraí demais com os brinquedos espalhados,
    com as contas penduradas na geladeira
    e as papinhas grudadas no tapete da sala.
    Te poupei olhares.
    Trabalhei mais do que deveria.
    Quando queria mesmo era aproveitar da sua companhia.
    Mas eu, sempre tão cansada…
    E havia entre nós um excesso de tempo.
    E de amor.
    Quase um desperdício.
    Nos dias de hoje…
    E amanhã ainda é quinta-feira.

  3. para revista serafina – abril/13
    http://folha.com/no1254315
    http://www.luizapannunzio.com/
    foto: Deco Cury

    LPLP

  4. 2/4

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    É preciso falar de nós dois.
    Mesmo que não pareça apropriado.
    Se tiver um segundo para mim.
    Na verdade eu queria trezentos segundos só para mim.
    Se eu tivesse estes 300 segundos, dividiria com você e o silêncio.
    Se chovesse, seria o cenário perfeito.
    Nós dois e a chuva. Ah, e o silêncio.

    Mas eu preciso falar de nós dois.
    Precisos. Vou falar bem baixinho.
    Da minha admiração por você.
    Eu queria te dizer, bem, antes de você dormir.
    Da sua importância e meu carinho.
    Preciso te deixar ciente das verdades que sinto.
    Porque aquele nosso amor, lembra?!
    Que parece não mais só a nós pertencer.
    Me dê 5 minutos de você.
    Quero convencer do meu bem te querer, hoje.

    Será possível?
    Quer saber?
    De nós.
    Já passam das 23h.
    Seremos ininterruptos.
    Porque o telefone não há de tocar a esta hora.
    Nenhum bebê chorará, já que só os fizemos
    dormir poucos minutos atrás..
    Vem, quero saber o que tem passado.
    Quero ter meus olhos cansados atentos e só em você.
    Parados.
    Vou te falar dos meus desejos.
    Te dizer que te amo.
    E aí então, podemos dormir.
    Amor.

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lp

Luiza Pannunzio é formada em artes plásticas pela FAAP. Fez pós-graduação na PUC – Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural. Desenhadora. é criadora da personagem Bebê da Cabeça Quadrada e também da menina que carrega um laço gigante na cabeça. Gosta muito de escrever nas horas vagas. Mas que horas vagas? Tem dois filhos – Clarice e Bento e com eles coleciona histórias. Com seu MARIDO junta palavras num tumblr que atende por “diálogos domésticos”. Confecciona roupas incríveis e outros mimos sempre pensando em você. Duvida?! Quer ver?! Espie tudo por aqui...

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