Atelier da lp

  1. Delícia!

    Acho uma delícia não ter que te
    explicar que preciso de cuidados.
    De alguns.
    Como todos.
    Como os outros.

    Delícia, acho.
    Quando você chega.
    E quando parte, quase que me ao meio.
    Delícia te esperar de forma tranqüila
    alienando dentro do meu apartamento.
    Fazer receitas que sei que adoraria o cheiro.
    Inventar temperos. Bolos. Bolsos.
    Vestidos pra você me ver ao vivo.
    Desejos traçados em finas linhas pretas.
    Colorindo.

    Delícia é sentir ainda um téco de você no travesseiro.
    Ao deitar, percebo os privilégios de quem recebe a visita.
    Seu agasalho no meu cabide.
    Seus olhos no banheiro.
    Sua música no meu piano.
    No nosso.
    Estou achando tudo uma delícia…

  2. Menino…

  3. Mini Explanação!

    Chama-se Aeroporto porque
    é lá que te encontro e te perco.
    Despenco e levito.
    Sorrio e fico meio muda à te olhar.
    Oscilo.

    É lá que a menina-pena percebe
    que não sabe voar.
    Pena…
    Presa no ar.

  4. aeroporto

  5. a pena – sentença.

    _Vamos deixar leve Lu.
    Já é naturalmente difícil pela distância…
    _Eu não sei ser leve.
    _Mas tem que aprender.

    Assim levantou a menina na manhã de quinta.
    Levitou.
    Disposta à mudanças.
    Densa.
    Pesando os prós e contras
    do amor que carrega na cabeça.
    Inventado.
    Deu pena.

  6. Em outras palavras…

    Crônica de uma menina crônica
    Por Adriana Guivo

    Ela sentiu crônica a dor de amar ao telefone.
    Mas antes lhe doía a dor de amar quem só lhe fazia doer-se inteira.
    Foi pouco o tempo do amor-sorriso, do amor-abraço,
    do amor entre lençóis e panos de prato esperando serem limpos.
    A roupa suja se acumulou rápido, transbordando no cesto de lixo,
    incalculável mesmo na lixeira virtual.
    Seus depoimentos do quanto sofria, compartilhados
    publicamente na rede, rendeu-lhe alguns solidários.
    Mas o que lhe pesava era a solidão partilhada a dois.
    Deixou assentar uma fina camada de poeira sobre as
    fotos e memória, sobre toda a mobília,
    indo sentar distante da estante que presenciou o princípio do fim.
    Nenhum dos livros que ela contém
    poderia descrever o amargo paladar das agressões verbais.
    Ou mesmo da física (nada quântica).
    Foi numa conversa fonada que disse
    ”não me procure mais”,
    ao que ouviu em resposta
    “me empresta seu carro ou me dá uma carona?”
    Caminharam ruivos de cabeça quente e corações partidos.
    Idos. Naturalmente são assim,
    carregando estórias anteriores como membros
    indispensáveis de seus corpos falíveis.
    A fina camada de poeira – a parte mais delicada da relação
    – desfez-se estando ela já no meio de uma outra ligação, uma ponte Rio-SP.
    Ele ligou só pra dizer que na Bélgica o chocolate
    que eles compravam em Pinheiros era muito mais barato.
    Foi um engano.
    Aquele número já não existe mais
    pra esse tipo de mensagem cifrada.
    Sem saber o que dizer e sem saber comportar o silêncio,
    perdeu a compostura ao deixar escapar os piores verbos
    daquele passado imperfeito de meses atrás,
    que já não permitia nem mesmo a condição de serem futuros amigos.
    Adoraria ter posto o telefone no gancho,
    mais romântico que a tecla vermelha de
    seu celular terminando a conversa.
    Alô? Ninguém, só o vazio do som.
    Era só pra confirmar.
    Ligou para a melhor amiga e disse:
    “acho que o que eu amo mesmo é um telefone:
    minhas estórias estão sempre por um fio ou do outro lado da linha”.
    Ela é só uma menina crônica que ama
    mesmo quando odeia, que atende números privados
    ou desconhecidos, e que não entende como uma ligação
    se encerra e encerra junto a ligação entre duas pessoas.

  7. Deles . no Pão de Açúcar.

    “Que lindo ouvir isto de você.
    Se eu pudesse tinha filmado.
    Acho que vou perdir as imagens
    das câmeras de segurança…”

  8. Coabitação Pacífica dos Contrários.

    Por favor, não me ligue.
    Por favor, não me esqueça.
    Por favor, não aborreça.
    Não desista.
    Não insista tanto assim, é madrugada.

    Por favor, me chama.
    Me deixa.
    Me fala as verdades, as piores, as melhores.
    Inventa.
    Por favor, me perdoa.
    Me esquenta.
    Me faz amar.
    Odiar.
    Crescer.
    Por favor, tenta.
    Me mova.
    Remova todas suas coisas daqui.

    Por favor, não volte.
    Não se arrependa.
    Não me maltrate.
    Não olha assim para mim.
    Por favor, me escuta.
    Não vá embora, ainda é cedo.
    Me deixe só se for para sempre.
    Por favor, repense.
    Por favor, me faça um favor qualquer.

  9. Ela aprendeu com Jurandir Freire Costa:

    O cultivo dos sentimentos,
    usa as sensações privadas como meio de refinar a satisfação
    que podemos ter com a memória das interações emocionais
    vividas com o outro próximo.
    A realização romântica tem no gozo das sensações
    um trampolim para o esforço nos sentimentos de apego,
    ternura, preocupação, devoção ou
    deleite com a posse ou monopólio do
    desejo erótico do parceiro.
    A satisfação sensual é um instante que abrevia
    a história da relação entre sujeitos,
    cujo maior objetivo é a fruição do sentimento a dois.
    Saber o que significa “estar apaixonado ou enamorado”
    exige dos sujeitos a competência para distinguir
    entre a “pura satisfação sensual” e a
    “satisfação com a rememoração da satisfação
    sensual e sentimental que se pode ter com o outro”.

  10. Dá pra ser ao vivo?

    Esqueça o presente.
    Te quero presente.

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lp

Luiza Pannunzio é formada em artes plásticas pela FAAP. Fez pós-graduação na PUC – Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural. Desenhadora. é criadora da personagem Bebê da Cabeça Quadrada e também da menina que carrega um laço gigante na cabeça. Gosta muito de escrever nas horas vagas. Mas que horas vagas? Tem dois filhos – Clarice e Bento e com eles coleciona histórias. Com seu MARIDO junta palavras num tumblr que atende por “diálogos domésticos”. Confecciona roupas incríveis e outros mimos sempre pensando em você. Duvida?! Quer ver?! Espie tudo por aqui...

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