Atelier da lp

  1. ontem

    Saiu do trabalho.
    Passava das oito e meia da noite.
    Comprou um jantar rápido para dois.
    Chegando em casa foi direto ao chuveiro.
    Mas antes fez tocar Philip Glass no
    pequeno aparelho que reside em cima do piano.
    Bem alto.
    Ao sair do banho percebeu que uma estranha
    sensação de tristeza havia preenchido seu corpo.
    Todo. Menos a cabeça.
    Esta estava perdida dentre todas as
    possibilidades de uma noite feliz.
    Enfiou-se num pijama quente, mas nem estava frio.
    Abriu a janela que fica na cabeceira
    da cama e deitou ali mesmo.
    Bem na cara do vento que
    fazia a cortina dançar.
    Alegremente.
    Não faltava-lhe ar.
    Quando ele abriu a porta,
    os olhos dela já estavam rasos d’água.
    Abraçou.
    Ela, que escondia o rosto do dele.
    Um fracasso.
    Ou quase uma brincadeira de gato e rato.
    Permaneceram grudados por alguns minutos.
    _Porque está assim?
    _Porque estou sofrendo diante tantas oportunidades.

  2. Dancinha.

  3. Exausta.

    Não fala mais a palavra CANSADA
    desde que sua amiga Ana Kátia ensinou
    que se não falar, não cansa.
    Não fala mas pensa na proibida palavra
    o tempo inteiro.
    Pensa no formato que ela tem.
    Letra por letra.
    C – A – N – S – A – D – A
    Que chegam a dançar frente aos olhos dela.
    E quando vai chegando o fim do dia
    a palavra parece invadir a ponta de sua língua.
    Segura.
    Flutua em seus pensamentos.
    Mas ela não fala.
    Não faz som de cansada.
    E se cansa de sensurar.

  4. O Alzheimer da vovó.

    Pelo Nexel:
    _Você vem quando?
    _Ah Vó, acho que agora só no final da semana.
    _Mas eu estou com saudade.
    _Eu também.
    _Como é mesmo seu nome?
    _Você não se lembra?
    _Ninguém me falou…
    _É Luiza Vó.
    _Ah Luiza, você sumiu. Nunca mais veio aqui na casa
    da, da… Como é mesmo o nome dela?
    _Vera Vó, sua filha.
    _Isso. Eu nunca mais te vi por aqui!
    _Mas pode me esperar, desse final de semana não passa.
    Vou aí te abraçar e te encher de beijos, combinado?!
    _Ta bem.

    Ao desligar o telefone olhou para
    a filha pouco reconhecida segurando aparelho
    nas mãos e disse:
    _Legal esta sua prima!

    Sorriram apenas.
    Hoje, Vera chorou de rir ao me contar.
    Sinal de que a tristeza não deixa de ter a sua graça.

  5. friozinho por dentro.

    Atravessou a rua com uma ideia fixa.
    Ser feliz.
    Porque sente-se meio obrigada.
    Desde pequena.
    Aos quinze relembra,
    a mãe questionou a falta de sorrisos dela
    pela primeira vez. Depois só silêncio.
    Foi nesta mesma época que passou a fingir.
    Porque assim é que é.
    Ser adulto é um pouco isso.
    Também, parou pra pensar,
    se não for feliz agora, quando será?

    A insatisfação a acompanhou até
    o outro lado da calçada.
    Grudou nela o dia todo.

    Incomodada.
    Comemorou quando o dia terminou.
    Feio, amargurado e triste.
    Feito de um chuvisco previsivelmente chato.
    Não foi nada emocionante.

    Na volta para casa ela evitou olhar ao redor.
    Já não queria mais nada.
    Apenas a continuidade.
    Mesmo que signifique isso.

  6. Flashback.

    AO Leitor.
    Quando acordou, sentiu a
    responsabilidade do amor nos ombros.

  7. Riu de si mesma.

  8. eu não me encaixo!

  9. eu vim daqui.

    De milhares de cores e texturas.
    De café com leite.
    De abraço quente.
    Conforto e colo.

    Eu vim daqui.
    Da bagunça.
    De mãos ágeis.
    Feita de agulhas e alfinetes.
    Gente.
    Suor.

    Eu ouço o rádio.
    Eu sou do meio.
    Sou máquina.
    Do interior.
    Sou coração.

    Recortes.
    Moldes.
    Eu tenho modos.
    Me vendo.
    Parcelo.
    Recebo e entrego.

    Te enfeito.
    Invento.
    Eu tenho medos.
    Mas isso não vem ao caso.

  10. É tudo verdade.

    Desde pequena sabia o que queria ser.
    Os papéis que queria desempenhar.
    Desenhava para isso.
    Passava tardes e noites em cima da escrivaninha,
    rodeada de lápis coloridos e canetinhas.
    Quando chegou a hora de escolher a faculdade, já sabia!
    E os pais não interferiram nas decisões dela.
    Nunca.

    Quando resolveu se casar, simplesmente foi ao cartório.
    Quando resolveu separar, foi simples, voltou ao cartório.
    Mudou de cidade.
    Experimentou de tudo que queria.
    Escolheu.
    Parcerias.
    Fez os amigos que lhe convieram.
    Sempre parecia saber o que desejava.
    Não restavam-lhe dúvidas.
    Algumas.

    Mas houve um tempo em que ela se perdeu.
    Talvez por meses, não sei.
    Passava tardes e noites em cima da escrivaninha,
    rodeada de lápis coloridos e canetinhas.
    Desenhando o cenário que via.
    Desesperou-se com sua hipocrisia.
    Desde pequena sabia as mentiras que queria.

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lp

Apesar do nome, pouco sabe sobre música. É formada em Artes Plásticas pela FAAP. Pós-Graduação em Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural pela PUC-SP. Trabalha com moda desde menina - estilista.
Desenha poesias e gosta muito de escrever.

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