Atelier da lp
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Com amor, .
Desde que você nasceu, ensaio.
Mas não sai nada de mim além do leite e alguns sorrisos cansados.
A alegria está aqui dentro, guardada pra nós.
Mas a ideia de ser feliz agora enche meus pulmões.
Só os pulmões.
Vejo-os inflando igual bexiga e voando para o alto no fim do dia cinza.
Cheio de chuva.Estamos exaustos de amor.
Não fartos. Mas a exaustão também gera em mim uma certa tristeza.
Isso desde sempre. Choro quando estou cansada.
A mesma tristeza que se dissolve a cada sorriso seu. É um ciclo.Você nasceu depois das quarenta semanas.
Foi uma surpresa. Não entendo como fui pega assim, desprevinida
se estivemos à sua espera por longos nove meses.
Não foi natural.
Estávamos numa festa depois de um dia todo de trabalho.
Uma festa na casa do “Biso” com todos os amigos dele em volta da mesa,
que estavam lá justamente por causa de você. Queriam ver o barrigão da mamãe.
E por pouco não o perderam. Porque de repente, você
passou a dar sinais de que queria nascer.
Eu quase morri de dor. Fui ao banheiro milhares de vezes.
A bolsa estourou e corremos pra maternidade.Fizeram-me um corte e o anestesista (que parecia ter dezenove anos)
teve que subir em cima de mim pra te botar pra fora. Doeu.
Eu derrubei uma única lágrima e meia assustada de emoção.
Desculpe, mas estava em choque. Pronto!Éramos três. Somos desde então.
Vivendo a melhor história de amor dos últimos tempos.
Com tudo o que temos direito.
Não sobra nada pra mais ninguém e nos faltam horas
para vivermos o que um dia fomos nós dois.
Às vezes rabisco um pouco da gente,
que é pra te lembrar Caetano,
que daqui para diante será preciso planejar.
Até mesmo pra gente namorar um pouco.
Logo eu, que nunca fiz um plano sequer na vida.
Estou tendo que me organizar.
Agenda, horários, pediatra, mamar, arrotar, trocar…
Novos ritmos e silêncio por favor, a bebê está dormindo.
Descobri que gosto do silêncio justamente quando ele me falta.Nos primeiros três meses Clarice – a bebê, vomitou em mim copiosamente.
Com cheiro e sem dó. Disseram-me que era normal.
Mas não pra mim. Ela mais parecia o exorcista jorrando todo leite
ingerido segundos após mamar.
E lá estava eu de novo, disposta a te alimentar
até que o leite perdurasse em seu mini estômago.
Assim, dias feitos de pura insistência foram passando.
A cicatriz foi se formando e você, minha bebê, foi crescendo, se desenvolvendo.
Começamos então a introduzir novos alimentos no seu dia-dia.
E como de costume, você recusa todos eles.
Exceto aquela bolacha de chocolate que ninguém sabe que te dei.Como previa o médico, sem o uso do método “deixa chorar”
você continua sem dormir. Como aguenta?
Disseram-me que é normal, mais uma vez.
Mas que depois do sexto mês, você deveria, como a maioria,
se entregar ao prazer do sono. Hã?
Estas previsões definitivamente não funcionam contigo.
Nem chupeta e mamadeiras.
Seu peso não bate com a média na sua idade, nem sua altura.
Ou seja, estamos fora da moda do mundo dos bebês e tudo bem.
Nunca prestamos muita atenção mesmo nele.
Nunca lemos um livrinho sequer.
Vamos levando a vida através do meu instinto materno animado.
Eu estou animada! Né?!Desde do dezesseis de outubro do ano passado,
seu pai e eu vivemos apenas pra você.
Já sabíamos que seria assim.
Quer dizer, eu sabia que seria mais ou menos assim.
Na verdade, achava que era um pouco mais fácil.
Poxa, minha mãe teve três! As pessoas tem filhos! Então…
Achava que eu seria uma mãe incrível.
Que você seria uma criança fácil, feliz e forte.
Por enquanto você é feliz e forte. Só não é fácil.E eu achava ainda que daria conta de tudo.
Que tudo continuaria exatamente como era antes.
Mas confesso, eu estou me arrastando.
E quando chega a noite eu até tremo.
Passei a sonhar com seus pesadelos.
Quando tudo e só o que eu mais quero é fazer você feliz.
Só. Fazer vocês felizes por inteiro e para sempre.Os outros me olham e dizem “são
fases, estas mais difíceis.
Que passam depressa e a gente logo esquece.”.
Dizem mais, que logo sentirei falta desse corre-corre,
de todas e tantas lágrimas.
Eu duvido disso também porque, eu, assim como Clarice, não sou previsível.
Não sentiremos falta das dificuldades.
Talvez da tranqüilidade que parece nunca mais estar por vir.
Porém, eu amo muito vocês, perdida e loucamente, mesmo assim.
E choro.
Porque estou exausta. Mas não farta.
Desse nosso amor.- 9 de junho de 2011
- 17:37
Comentários
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Patricia Barbosa
9 de junho de 2011 / 18:48Minha amiga linda, queria poder te abraçar agora. <3
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Nome
9 de junho de 2011 / 18:58Jah estava ficando com saudades das sensacoes q teus textos me causam..
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Mário
9 de junho de 2011 / 21:24Relato-poema, como uma exposição de flores, ou, melhor, uma coleção de pétalas – que formam distintas flores…
Teus espelhos colecionam lindas imagens.
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Dri Galindo
9 de junho de 2011 / 22:17E mais um pouquinho de lágrimas, que agora são as minhas que se emocionam….Lu, você enfeita o mundo!