Atelier da lp
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O nó na garganta.
Algumas vezes fico tão angustiada
que me perco chorando no caminho de volta para casa.
E a razão para todo rebuliço
que me embrulha o estômago
deixa de ser clara.
Passa a ser quase tudo o que me rodeia.
Inclusive você.- 5 de agosto de 2009
- 22:46
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C A faz o dia seguir triste.
A palavra CÂNCER é proibida na minha família.
Isso coloca em dúvida a tal lei da atração.
Tudo bem porque nunca nem li nem assisti “O Segredo”._E então mama, levou ela ao médico?
_Sim, ela está toda feliz hoje.
_E o que ela tem? Ele disse?
_C A.
_Ah? Câncer?
_Raãm.- 30 de julho de 2009
- 13:35
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domingo
Chegou ao apartamento.
Fazia mais de um ano que não botava os pés lá.
Apertou a campanhia.
Seguiu um voz cansada.
Gritada sem força nem ânimo:
_Entre.
Abriu a porta e enxergou sua avó de cabeça baixa,
descalça, sentada em uma das cadeiras da sala de jantar.
_Cadê sua tia? Por que ela não veio me buscar?
_Oi Vó, eu pedi para vir no lugar dela.
Para te fazer uma surpresa.
_Ah.
Um silêncio monstruoso tomou conta do ambiente.
Abaxou-se sob os pés dela e começou a colocar delicadamente
as meias nos pés. Inchados. Depois, calçou-lhe os sapatos.
Com dificuldade. Fez uma graça, uma piada, mas
sua avó, especialmente naquela manhã, não estava para gracinhas.
Os olhos se cuzaram vagarosamente e tímidos.
Quando deu conta, as duas olhavam de novo para baixo.
_Como tens pés pequeninos vó?!
_36 como os seus.
Olharam-se novamente.
Rápido.
E pela primeira vez se enxergaram de fato.
Cruas, com suas verdades.
Não se desgrudaram.
Os cílios se mechiam pedindo calma e socorro.
Ao mesmo tempo.
As mais siceras desculpas.
Sentia-se mal.
Por todas as não visitas do ano.Não era um habito preocupar-se com ela.
E depois que soube que ficou doente, não podia mudar
de comportamento. Vovó não gostava de ser paparicada
assim só de vez em quando. Ou se é sempre ou nunca!
E à elas faltava intimidade para isso.
Não pode telefonar para dizer o quanto sentia.
Percebeu que nem seu número possuía.
E aquela senhora debilitada que não
mais conseguia calçar o próprio sapato, era sua avó.
À quem pelo menos há vinte anos
não dava satisfação alguma.
Nunca mais havia saboreado a sardinha frita,
o cuscuz e a dobradinha.
Como se estes pequenos prazeres tivessem perdido
a importância com o tempo. Ficaram na infância dela.
Por isso ela sentia culpa.
Enquanto a avó talvez nem se importasse. Não percebesse.
Distraída com os outros netos e bisnetos.
E os problemas com o apartamento na Praia Grande.
Mas era manhã de um domingo e o encontro
entre elas pesou-lhe sobre os ombros.
Estendeu a mão.
A avó segurou firme em seu braço.
Levantaram-se. Uma apoiando na outra.
Seguiram o mesmo caminho.
Dessa vez num silêncio tranquilo.
Não era preciso dizer nada.- 26 de julho de 2009
- 11:57
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Memória – 01.
03.
No carro, na volta, ela perdeu a cabeça por duas vezes talvez.
Se culpa por isso todas as noites.
Gritou com ele.
Bem alto até sua garganta doer.
Para que ele parasse de cantar a tal música da baleia.
Gritou mais de uma vez.
Chorou.
Parou no acostamento e ficou por meia hora para fora.
Não sabia mais o que fazer.
Ele não reagia, apenas cantava aquela canção.
Cada vez mais alto.
Balançava seu corpo para frente e para trás.
Ela quase desistiu de chegar em casa.
E quando isso aconteceu, disfarçou aos vizinhos.
Pensou “Vai passar”.
Mas, era apenas o início.
Da sucessão de movimentos repetidos.
Despido, banhava-se e saia. Corria.
Abria e fechava portas, janelas e gavetas.
A casa acabou ficando toda molhada.
Ele escorregava, caia e não chorava, mas se machucava.
Se machucavam e ele não percebia.
Quando ela conseguia, encostava,
pedia calma, tentava abraçá-lo para tranqüilizar.
Mas não havia jeito. Ele era fisicamente mais forte.
E quando descobriu a cozinha, ela escondeu dele o faqueiro.
Confiscou os fósforos e desligou o gás.
Nas quatro horas que se seguiram dedicou-se a enxugar
o piso da casa que ele molhava, escorregava,
caía, chorava e machucava.- 11 de maio de 2009
- 17:54
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Duas certezas e uma consequência óbvia.
Tenho problemas no coração.
Falta-me ar.
Morrerei de insuficiência respiratória
seguida de parada cardíaca.
Nem vai doer. Vai?!- 14 de abril de 2009
- 19:30
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