Atelier da lp

  1. O nó na garganta.

    Algumas vezes fico tão angustiada
    que me perco chorando no caminho de volta para casa.
    E a razão para todo rebuliço
    que me embrulha o estômago
    deixa de ser clara.
    Passa a ser quase tudo o que me rodeia.
    Inclusive você.

  2. C A faz o dia seguir triste.

    A palavra CÂNCER é proibida na minha família.
    Isso coloca em dúvida a tal lei da atração.
    Tudo bem porque nunca nem li nem assisti “O Segredo”.

    _E então mama, levou ela ao médico?
    _Sim, ela está toda feliz hoje.
    _E o que ela tem? Ele disse?
    _C A.
    _Ah? Câncer?
    _Raãm.

  3. domingo

    Chegou ao apartamento.
    Fazia mais de um ano que não botava os pés lá.
    Apertou a campanhia.
    Seguiu um voz cansada.
    Gritada sem força nem ânimo:
    _Entre.
    Abriu a porta e enxergou sua avó de cabeça baixa,
    descalça, sentada em uma das cadeiras da sala de jantar.
    _Cadê sua tia? Por que ela não veio me buscar?
    _Oi Vó, eu pedi para vir no lugar dela.
    Para te fazer uma surpresa.
    _Ah.
    Um silêncio monstruoso tomou conta do ambiente.
    Abaxou-se sob os pés dela e começou a colocar delicadamente
    as meias nos pés. Inchados. Depois, calçou-lhe os sapatos.
    Com dificuldade. Fez uma graça, uma piada, mas
    sua avó, especialmente naquela manhã, não estava para gracinhas.
    Os olhos se cuzaram vagarosamente e tímidos.
    Quando deu conta, as duas olhavam de novo para baixo.
    _Como tens pés pequeninos vó?!
    _36 como os seus.
    Olharam-se novamente.
    Rápido.
    E pela primeira vez se enxergaram de fato.
    Cruas, com suas verdades.
    Não se desgrudaram.
    Os cílios se mechiam pedindo calma e socorro.
    Ao mesmo tempo.
    As mais siceras desculpas.
    Sentia-se mal.
    Por todas as não visitas do ano.

    Não era um habito preocupar-se com ela.
    E depois que soube que ficou doente, não podia mudar
    de comportamento. Vovó não gostava de ser paparicada
    assim só de vez em quando. Ou se é sempre ou nunca!
    E à elas faltava intimidade para isso.
    Não pode telefonar para dizer o quanto sentia.
    Percebeu que nem seu número possuía.
    E aquela senhora debilitada que não
    mais conseguia calçar o próprio sapato, era sua avó.
    À quem pelo menos há vinte anos
    não dava satisfação alguma.
    Nunca mais havia saboreado a sardinha frita,
    o cuscuz e a dobradinha.
    Como se estes pequenos prazeres tivessem perdido
    a importância com o tempo. Ficaram na infância dela.
    Por isso ela sentia culpa.
    Enquanto a avó talvez nem se importasse. Não percebesse.
    Distraída com os outros netos e bisnetos.
    E os problemas com o apartamento na Praia Grande.
    Mas era manhã de um domingo e o encontro
    entre elas pesou-lhe sobre os ombros.
    Estendeu a mão.
    A avó segurou firme em seu braço.
    Levantaram-se. Uma apoiando na outra.
    Seguiram o mesmo caminho.
    Dessa vez num silêncio tranquilo.
    Não era preciso dizer nada.

  4. Memória – 01.

    03.

    No carro, na volta, ela perdeu a cabeça por duas vezes talvez.
    Se culpa por isso todas as noites.
    Gritou com ele.
    Bem alto até sua garganta doer.
    Para que ele parasse de cantar a tal música da baleia.
    Gritou mais de uma vez.
    Chorou.
    Parou no acostamento e ficou por meia hora para fora.
    Não sabia mais o que fazer.
    Ele não reagia, apenas cantava aquela canção.
    Cada vez mais alto.
    Balançava seu corpo para frente e para trás.
    Ela quase desistiu de chegar em casa.
    E quando isso aconteceu, disfarçou aos vizinhos.
    Pensou “Vai passar”.
    Mas, era apenas o início.
    Da sucessão de movimentos repetidos.
    Despido, banhava-se e saia. Corria.
    Abria e fechava portas, janelas e gavetas.
    A casa acabou ficando toda molhada.
    Ele escorregava, caia e não chorava, mas se machucava.
    Se machucavam e ele não percebia.
    Quando ela conseguia, encostava,
    pedia calma, tentava abraçá-lo para tranqüilizar.
    Mas não havia jeito. Ele era fisicamente mais forte.
    E quando descobriu a cozinha, ela escondeu dele o faqueiro.
    Confiscou os fósforos e desligou o gás.
    Nas quatro horas que se seguiram dedicou-se a enxugar
    o piso da casa que ele molhava, escorregava,
    caía, chorava e machucava.

  5. Duas certezas e uma consequência óbvia.

    Tenho problemas no coração.
    Falta-me ar.
    Morrerei de insuficiência respiratória
    seguida de parada cardíaca.
    Nem vai doer. Vai?!

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Luiza Pannunzio é formada em artes plásticas pela FAAP. Fez pós-graduação na PUC – Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural. Desenhadora. é criadora da personagem Bebê da Cabeça Quadrada e também da menina que carrega um laço gigante na cabeça. Gosta muito de escrever nas horas vagas. Mas que horas vagas? Tem dois filhos – Clarice e Bento e com eles coleciona histórias. Com seu MARIDO junta palavras num tumblr que atende por “diálogos domésticos”. Confecciona roupas incríveis e outros mimos sempre pensando em você. Duvida?! Quer ver?! Espie tudo por aqui...

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