Atelier da lp
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1 Deus, 6 fiéis surdos, o muro e nós.
Há quem diga que prefere andar com Deus do seu lado.
Eu não e vou explicar o por quê.
Meus pais moram desde que eu sou pequena na mesma casa,
num bairro simples no interior do estado -Sorocaba.
Nesta casa que eu cresci. Brincando na rua, pegando muito piolho e fazendo amigos de verdade.A casa dos meus pais fica em frente a um colégio da prefeitura,
num bairro que é residencial e católico. A igreja fica a poucos metros dali.
Onde fiz catecismo. Não só eu, mas meus irmãos, meus primos e meus vizinhos.
Morávamos todos bem perto e perto da igreja.
Então, fazer catecismos era de praxe, ninguém escapava.
Em dia de aula e conversa com o Padre, a gente subia até a igreja de bicicleta.
Era uma festa. Das aulas mesmo, pouco me lembro.
Pensando bem, de nada serviram visto que eu só sei rezar o pai nosso e a ave maria.
Mas eu ia. Eu e todas as crianças do bairro.Meus pais ajudavam na igreja. Minha mãe ensaiava o coral com as crianças.
Crianças estas muito pobres, vindas da favela que era logo ali, encostada em nossa casa.
Aos domingos, depois da missa, tinha um café com leite e pão com manteiga.
Eu ajudava a colocar a mesa mas ia mesmo na missa pra poder filar a merenda.
Recordo-me do cheiro do leite quente com toddy esquentando na panela
sendo mexido com a colher de pau para ser servido logo após o sermão.
Ai meu Deus, e o sermão às vezes demorava a passar.
Pra mim, era a eternidade!
Mas meus domingos na igreja sempre tinham final feliz com barriga cheia.
Todos comiam. Dividíamos os pães. Nada mais católico!Quando mudei para capital, nunca mais fui à missa.
Tamanho meu desinteresse. Meu ceticismo ficou maior.
A obra agora era o acaso. Mas não por acaso, quase trinta anos depois,
ao lado da casa onde eu nasci e onde meus pais ainda moram abriu uma igreja evangélica.
Não é a primeira vez. As igrejas evangélicas tentam entrar no bairro, que como já disse
é em sua maioria católico por ter a igreja tão próxima e que há tantos anos
trabalha para a comunidade local. Mas insistência faz parte do negócio e
os evangélicos estão no direito de ter sua boquinha ali também.
Quem sou eu pra dizer?! A comedora das merendas!Então, a igreja DEUS é FIEL, se instalou de manhã ao nosso lado e a tarde já puxou as cadeiras.
Tinham tudo de que precisavam, cadeiras de plástico, amplificador, microfone e discurso.
Pronto! Apresenta-se fervorosa a pastora aos seus seis fiéis surdos.
Digo que são surdos porque ela usa um microfone para falar com eles.
Eles são seis apenas e ela grita no microfone e os exorcisa diariamente
das sete às nove e meia da noite. Perdão mas só podem ser surdos.Quando minha mãe veio contar sobre a presença da igreja ao lado de nossa casa,
eu fiz piada, disse que ao menos Deus insistia em tê-la ao seu lado.
Até que no último domingo presenciei ao culto.
Lá estavam os seus cinco fiéis surdos, a pastora e o microfone.
E dentro da nossa casa, a vida virou um inferno.
A mesma casa onde cresci, onde meus pais ainda moram,
onde minha avó que tem Alzheimer olha para a televisão,
onde a gente se reune pra tomar um café aos finais de semana,
onde minha filha que tem um ano tentava pegar no sono,
onde antes havia um silêncio merecedor…
Não tem mais sossego.
Não temos como conversar, nem ver TV ou falarmos ao telefone até que o culto acabe.
E eu me pergunto, cadê Deus nessa hora?
A casa fica na Rua José Marchi, 455 – Jardim dos Estados – Sorocaba/SP
e eu gostaria de saber da prefeitura qual medida devemos tomar para que a paz volte a reinar. É isso!- 14 de novembro de 2011
- 21:05
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