Atelier da lp

  1. Uma pitada de açúcar.

    Entramos na 23 semana de gestação.
    Então, fomos ao médico e a balança constatou que estou 8 kilos mais gorda.
    Considerando que o bebê tem pouco mais de 500 gramas, 7k e meio são meus.
    E pior, considerando que a meta é atingir no máximo os 12 kg permitidos `a todas mulheres grávidas,
    percebi que estou muito próxima do limite saudável (como sempre).
    Vou atingir os 12kg muito antes do tempo.

    Veja… Foi fácil para mim.
    Coloque-me uma meta, adoro atingir os objetivos.
    Fui treinada para isso. Porém aqui a meta é as avessas.
    Ou seja, serei uma grávida obesa antes mesmo do sétimo mês terminar.
    Levei bronca do Doutor que em seguida, após tirar minha pressão e constatar que
    não há inchaço em minhas pernas e que o coração da Clarice bate certinho,
    no ritmo; sorriu e me deu os parabéns:
    _Parabéns, você tem sido uma ótima mãe.

    Como assim?
    Acabou de me dizer que estou obesa, (ok, ele não falou assim com estas palavras)
    que vou afogar meu bebê em minha banhas horrendas (isso não foi mencionado em hipótese alguma)
    e agora abre este sorrisinho e me da parabéns?!
    Tarde demais, já estava me sentindo um fracasso.
    Um fracasso gordo. Que tem dores nas costas, respira com toda dificuldade,
    dorme mal e faz xixi a cada 5 minutos. Mesmo assim eu sorri desanimada. Mas ele emendou:

    _ Só precisa cuidar do peso, porque tudo o que exceder os 12 kg ficará aí para sempre.

    _Calma aí Doutor. Para sempre também já é demais.
    Fiz uma pausa ofegante. Para sempre?
    Ainda mais nos dias de hj. Nada me parece ser para sempre. Pense…

    Ele não sorriu. Era tarde demais, eu desapontei o Doutor.
    E quem liga para isso?
    Eu!
    E como isso foi acontecer?
    Foram meus kilos a mais?
    Ou será que ele só estava tendo um dia difícil?
    Mais do que o meu?

    As dores nas costas me fazem andar como uma pata gorda manca,
    a faringite me irrita a garganta e todo e qualquer medicamento deve ser
    mantido fora do meu alcance. Isso sem eu mencionar a fome que me alastra.
    Quem aqui é que está tendo um dia difícil?
    Será que o fato de eu continuar ignorando o uso das meias Kedall tirou o humor dele?!

    _Vamos lá Doutor, concorde comigo…

    _Se alguém perguntar com quem você fez seu pré natal, não diga que fui eu.

    Isso foi uma piada?
    Foi o melhor que conseguiu para hoje?
    Eu sorri, porque sempre sorrio, faz parte do meu show.
    Mas dessa vez ele não obteve resposta alguma.
    Nem a mal criada que estava bem na pontinha da minha língua.
    Quando perguntou sobre meu estado emocional eu não sabia mais o que responder.
    Ele tinha assassinado o mesmo.
    Olhei para Caetano que acompanha-me a todas as consultas
    e este tratou de relatar minhas oscilações. Para melhorar o clima.
    E eu completei:

    _Sou emocionalmente abalável. Mas sempre fui assim.
    Agora, não ando chorando `a toa, nem reclamando `a toa.
    Quer dizer, acho que estou sob controle. Não? Estou trabalhando,
    cozinhando, cuidando de nós, da casa, da nossa família, nossos amigos.
    Estou desenhando, escrevendo, tendo idéias, vendendo, ganhando dinheiro,
    pagando as contas, indo ao correio, transando… Não basta?
    Bem… Eu acho que está tudo indo muito bem!

    Disse isso olhando para meu marido que manteve a
    cabeça abaixada num total desconforto.
    Isso seria um sim ou não?
    Dois segundos depois já sabia que era um não. Santa inteligência!
    Caetano reclamou da minha teimosia em trabalhar e em caminhar.
    Como se alguma pessoa pudesse viver sem isso!
    Há certa altura o Doutor quase cedeu `as reclamações dele.
    Eu digo quase porque ele não ousaria (vendo a cara que eu fazia)
    em pedir para que deixasse minha profissão em segundo plano.
    Nem os poucos momentos em que posso respirar aliviada
    e caminhar tranquila sem que haja alguém ao meu lado.

    Saímos de lá, passava das oito e o silêncio nos acompanhou pelo resto da noite.
    O jantar foi regado por legumes e folhas verdes. De sobremesa uma mexirica.
    Faltou-nos doçura nesse dia.
    Um bolo, uma torta, uma bolacha e ou uma bola de sorvete, aliviaria…
    Pena que estou acima do peso.

  2. Umbigo.

    umbigo

  3. Caetano Canta.

  4. OVOS.

    Depois de ver ao filme “As Melhores Coisas do Mundo” de Laís Bodanzky o que ficou na
    minha cabeça foi a cena da mãe e filho quebrando ovos na parede da cozinha.
    Sem dúvida chorei. Não só porque estou grávida e por isso, um tanto quanto mais emotiva,
    chorando por tudo e todos; mas também por me dar conta da fragilidade de nossas famílias.

    Somos feitos de casca de ovo.
    Constituímos nossos lares com paredes brancas e frágeis.
    Que se quebram facilmente. Se despedaçam em minúsculos pedaços
    que ao juntarmos de novo, colarmos, jamais adquirimos novamente aquela forma perfeita.
    Talvez porque não exista.

    E eu mesma já quebrei tantas vezes e não aprendo. Nem me arrependo.
    Deixei meus pedaços pelo chão. O tempo tratou de me reconstituir.
    Logo então, virei ovo de novo. E com outros frágeis e semelhantes
    me acomodei numa casa feita sob medida para mim.
    Vivemos em caixinhas de papelão que a cada dia ficam menores.
    À perigo em qualquer instabilidade.

    E quer coisa mais instável do que o amor?
    Não há! Que atire-se primeiro na parede o ser humano-ovo que
    não sente o pavor do amor te fritando por dentro.
    Há os que fogem dele, os que ignoram e outros que como eu, se jogam.
    E seja o que Deus quiser!

    Sendo assim, elaborei a minha lista das melhores coisas do mundo.
    Com amor.
    Meu bebê.
    Caetano.
    Meu trabalho.
    Meus Pais.
    Rosa, Marina e Juliano.
    Cheiro de café.
    O bolo de chocolate da minha mãe.
    Minhas avós.
    Os avós dele.
    Meus sogros.
    Os amigos de sempre.
    Os novos amigos.
    Meus clientes.
    Meus desejos noturnos.
    Mc Lanche Feliz.
    Bolinho de arroz do Ritz.
    Sexo de manhã.
    A segunda mesa do Alberta#3.
    Os padrinhos do bebê.
    As roupinhas do bebê.
    Os papéis para desenho.
    Meus tios.
    Os travesseiros.
    Domingos.
    20h – final de expediênte e você vem me buscar.
    Rua Augusta.
    Macarrons.
    Nextel.
    Aniversário dos outros.
    Jantares entre nós 2.
    Você respirando.
    Você me orientando.
    Você me ensinando.
    Visitas inesperadas.
    Sol de outono.
    Som de violino afinando.
    O passado.
    As cicatrizes.
    As tatuagens.
    Um presente.
    Café da manhã de amanhã.
    Nosso futuro.
    E ovo quente.

  5. A espera.

    Tudo é diferente.
    Acordo cedo e seu travesseiro está entre as minhas pernas.
    Quis comprá-lo de você na noite passada e
    como não aceitou minha propósta, roubei-o na madrugada.
    O cheiro de café nos disperta.
    Você me enche de beijos.
    Faço cara de farta.
    Faminta.
    Diz bom dia para a barriga.
    Coloca minha música preferida e me da o jornal.
    Sem o caderno cotidiano. Percebeu que ele me deprime.
    Percebeu também que eu não tenho humor de manhã.
    Nenhum humor. Nem no fim do dia.
    O que é uma pena porque é justamente
    nestes dois horários nossa maior convivência.
    Você insiste comigo.
    Me deixa um dinheiro para o taxi.
    Simplesmente ignora o fato de que trabalho e que por isso,
    posso pagar pelo meu transporte.
    Com este seu dinheiro, de birra, compro uma Vogue qualquer,
    pago-me um café e no mínimo um mini doce.
    Sigo a tendência.

    Prefiro ir caminhando.
    Levo sua música.
    Não ouço nada além daquilo que me interessa.
    O trânsito propõe um novo rítmo.
    E para quem estava acostumada a correr todas as manhãs,
    caminhar parece um exercício bobo.
    Mas faz de mim uma mulher ofegante
    antes mesmo de terminar a Rebouças.
    Ainda assim, acho que vamos bem. Melhor!
    Eu preciso desse tempo para colocar os sentidos em ordem.
    Passo a passo tento não me sentir especial só porque estou grávida.
    Quero levar a vida normalmente. Como sempre fiz.
    E tento também não fazer os outros acharem
    você um bebê especial só porque é nosso.

    Posso te garantir, não somos nada demais além daquilo que nos propomos em ser.
    Cumprimos com nossas obrigações. Só somos brilhantes mesmo no amor.
    Exagerados!
    Não há como te faltar.
    Nem generosidade, porque temos de sobra.
    Pois bem, nada ha mais.
    Talvez eu devesse mencionar o talento do seu
    pai com instrumentos musicais.
    Mas prefiro o silêncio…
    Por vezes, queria que fossemos invisíveis.
    Nós três.
    Por medo. Zelo.
    Mas esquece. Agora sou mãe e estou no controle!
    Ouça aí nas profundesas do meu útero:
    _ Quem está no controle? Eu! Fique tranquila!

    Pode crescer sem preocupações.
    Me deixa disforme. Cheia de afeto.
    Sem vontade de sexo.
    O que espero que passe, afinal, acho bom te dar irmãos.
    As roupas estão mais justas a cada dia.
    Eu não ligo. Uso as saias sem fechar atrás.
    Corto os elásticos das calcinhas de algodão.
    Não abotoo o casaco.
    Como se diz “casa de ferreiro, espeto de pau”.

    O médico me alerta.
    Faz-me regras e às vezes promove encontros visuais
    entre nós com o ultrassom.
    É uma troca. E você é uma graça. Parece animada. Puxou o papai.
    O Dr. passou-me uma dieta.
    Proibiu os doces durante a semana. Não é piada.
    Disse que meus peitos vão cair se eu não usar um
    sutian de mãe sofredora que aperta minha alma.
    Eu tentei explicar à ele que meu peito vai cair de qualquer jeito.
    Que Caetano vai ter uma esposa de tetinha caída.
    E que não é por meus peitos que estamos juntos.
    Definitivamente, Caetano já pegou peitinhos muito melhores que os meus.
    E eu só quero ser uma grávida feliz.
    Já basta toda aquela ginástica com os biquinhos.
    Puxa de um lado, do outro, para cima, para baixo.
    Já basta a bucha/bruxa vegetal para tirar a sensibilidade dos mamilos.
    Chega de apertos. Toda crueldade tem limite!
    Ignoro também a recomendação das meias Kendall.
    Compreenda, ninguém precisa de mais pressão nessa vida!
    Já me cobro o bastante.

    Por não dar atenção devida aos amigos.
    Por não conseguir fazer tudo o que gostaria num dia.
    Nem comer os legumes, frutas e verduras que deveria.
    Por não ler mais, escrever mais, te ouvir sinceramente.
    Por não achar que mereço.
    Ou por achar.
    Por não querer que você me ache neurótica.
    Ou nem ligar.
    Por desligar o celular.
    Não responder sua mensagem. Não atender.
    Não ser a filha perfeita. Nem a mulher perfeita.
    Nem a mãe. O que dirá a nora…
    Enfim, por ter ainda que esperar!
    Como assim? Nove meses é uma eternidade!!!
    Parece que vida deu uma pausa.
    Pediu-me calma.
    E assim eu vivo a espera de te ver.
    Te carregar. Amar.

  6. O Filme da vovó.

    Espero que tenham tão boas lembranças da infância como eu.

    (PARTE 1)

    (PARTE 2)

  7. Ilustra para DOVE – campanha sabonete íntimo

    de sabão

  8. Ilustra para DOVE – campanha sabonete íntimo.

    banheira

  9. Abala-me.

    Você.
    O Haiti.
    Os políticos.
    As histórias que vejo na TV.
    A chuva castigando a cidade.
    A falta de compreensão entre nós.
    Falta de afeto.
    Meu tanto faz.
    Nosso faz de conta.
    As contas.
    1\3.
    Fé em quê?
    Folha de São Paulo.
    Sapatos que machucam meus pés.
    Fome.
    A reforma.
    Os filmes.
    As pessoas que moram na nossa rua.
    Saudade da minha família.
    As vantagens de estar onde estou.
    O peso.
    Minha escrivaninha.
    O vinho tinto.
    A droga da gaveta.
    O tempo e a falta que ele me provoca.
    O amor.
    Diálogos entre pais e filhos.
    Um domingo qualquer no parque.
    Silêncio.
    As garrafas pet boiando no rio.
    Planos.
    Impaciência.
    As cobranças de todos.
    As poucas horas de sono.
    Sexo.
    Música nova.
    Pernilongo.
    Arte.
    Imagem.
    Trânsito.
    O sol fazendo-me sardas.
    Disfarces.
    Quando me calo.
    Quando não fala.
    Preguiça de viver o que é previsível.
    Nenhuma vontade.
    1001 oportunidades.
    Seu mundo.
    O teatro das boas maneiras.
    Facilidades.
    As eternas conversas comigo mesma.
    Descontos para os outros.
    Curiosidade.
    Livros intactos na estante.
    Os excessos.
    Sofro com eles.

  10. contando azulejo.

    azulejo.

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lp

Apesar do nome, pouco sabe sobre música. É formada em Artes Plásticas pela FAAP. Pós-Graduação em Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural pela PUC-SP. Trabalha com moda desde menina - estilista.
Desenha poesias e gosta muito de escrever.

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