Atelier da lp

  1. Lugar Comum.

    Passou quase um ano desde o último contato.
    Onde não houve amor.
    Por isso, era preciso encontrar alguém que
    combinasse com ela.
    Pré-requisito, disposição à amar.
    Por que?
    Acredita nele.
    Não no dele.

    Para ela, amor é sinônimo de cuidados,
    bons tratos, carinho, sexo, amizade, cumplicidade.
    Quer dizer, para aquela guria, tudo isso junto significava amor.

    Conclusão, a união dali desfeita foi por conta
    da pele deles que combinava.
    Simples assim.
    O cheiro deles era bem conveniente.
    A atenção jamais fora dispensada.
    Mas não era amor.

    Nem sempre é ou se torna.
    Aliás, raramente.
    Na maior parte dos casos, resulta em nada.
    Quando não em ódio, depressão, abandono.
    O deles foi o pior.
    Acabou com uma palavra.
    Saudade.
    Por preferirem manter distância.

    Um tropeço.
    Muitas dúvidas.
    Ela se achava mal interpretadas enquanto tentava entender
    o que vinha da direção daquele um.
    Louca.

    Perderam-se no tempo.
    Distraíram-se com os outros.
    Estudaram todas as inúmeras possibilidades.
    Isso leva tempo…
    E quando de novo encontraram-se,
    inevitavelmente, era tarde.
    Viraram uma história qualquer.

    Depois de meses à procura daquilo que acharam
    que um dia sentiram um pelo outro em outros,
    descobriram o engano.

    Despistaram a infelicidade com drogas,
    amigos, bebidas e música bem alta.
    Para não haver diálogo. Só sexo. Sem envolvimento.
    Como se isso fosse possível.
    “Aqui, só há troca de fluídos!” avisava ele.
    Ou nem isso.

    Engajaram-se em outras turmas.
    Encaixaram-se em outras pessoas.
    E acabaram exaustos.
    E com saudade.

    Desviando deles mesmos.
    Por não haver outro jeito.
    Pois não sabiam lidar com o fomento de dentro do peito.
    O mesmo que fazia as pernas dela tremerem ao vê-lo passar.

    E ela o viu passar, uma, duas,
    5 mil vezes bem na sua frente.
    Até ele passar despercebido.
    Alguém a cutucar pelas costas e dizer
    “Viu quem está ali?!”.
    Mas era tarde.

    Não é triste?

  2. Disposição ao engano.

    Para caminhar ao seu lado foi preciso aprender outro ritmo.
    Suas pernas, muito maiores, ensinaram a correr.
    Difícil, apesar do alegre compasso. Mais alto. Mais largo.
    Prazeroso amor. Quase delinquência.
    Aconteceu assim, sem querer.
    Num domingo, descendo a rua augusta.
    Que ideia foi aquela que funcionou?
    Era outono e o vento no rosto enxugou as lágrimas.
    Abriram seus olhos. Libertos.
    Para acompanhá-lo.

    Desde então, teve que fazer os olhos,
    preguiçosos que eram,
    percorrerem mapas de geografia.
    Matéria esta ignorada por ela
    desde o início de vida escolar.
    Olhos estes jamais navegados pelos
    caminhos por onde andou.
    Não se assustou, nem deslumbrou e por vezes,
    reunidos, achou chato. Um porre. Um saco.
    Mas calou. Seus olhos sempre estiveram por
    demais ocupados com detahes.

    Desde os oito, os olhos dela eram viciados
    em estantes alheias. Adoravam as da pequena
    biblioteca do colégio em que estudava.
    Percorria-as através de suas cores até
    ao lugar mais alto que podia enxergar.
    De óculos escolhia, apontando para o alto.
    Pequena e dona grandes dores de cabeça,
    recomendaram-lhe óculos para descanso.
    Puro engano. Jamais descansou com eles.
    Esta parceria não levava a regalias.
    Literatura ou filosofia, na era dos óculos ela
    se desafiava o tempo inteiro. Virou hábito.
    Começava escolhendo sempre o
    livro mais difícil de alcançar. De ler, folhear.
    Sem preguiça. Esqueceu dos clássicos.
    Ignorou “Polyana”, mas “O Bichinho da Maçã”
    lhe fora inesquecível.

    Por isso não houve à eles,
    os olhos, falta de lazer. Nem à ela.
    Nem aos óculos. Nem viagens.
    Muito menos histórias para contar.

    Mas como explicar estas diferenças de olhar entre eles?
    Ela e ele.
    Ou o que fazer com elas, as diferenças?
    Somar? Multiplicar? Sonhar?
    Seriam possíveis, eles, tão diferentes no modo de ver a vida?

    A impressão que fica é que ela sempre esteve aqui.
    Sem sair do lugar, aguardando ele chegar.
    Para contar-lhe com detalhes o mundo do lado de lá.
    Enquanto mantém sem disfarces os olhos fixos na estante mais próxima.

  3. sábado/domingo

    São 4:46 da manhã e ela não consegue dormir.
    Levanta da cama e de roupão branco caminha pela casa apertada.
    Percebe que é tarde demais para comparecer `a festa de Halloween e cedo demais
    para arrumar a mesa do café da manhã. O sol parece que não vai nascer por
    enquanto. E ela não sabe o que fazer. Pensa em sair para correr, mas
    a esta altura do campeonato, a vila Madalena ainda é fervo de ontem.
    As imagens noturnas a deprimem quando ela não participou da festa.
    E só não participou de festa alguma porque deitou um pouquinho, após o jantar
    só para descansar, depois de tanto trabalhar
    e só acordou por agora. Aos sábados isto virou hábito.

    Abriu os olhos e ainda deitada na cama,
    ao lado dele, pensou: na loja, nas clientes e naquela “cliente”
    que a massacrou por todo mês de outubro. A “cliente do mês”.
    Pensou qe gostaria de fazer um retrato dela e colocar exposto lá na lojinha
    assim como fazem as grandes redes de fast food. Uma homenagem.
    Que bobagem. Riu de si mesma.
    Pensou que o mês acabou.
    Deu graças a Deus.
    Pensou na Rosa, no feriado, no almoço de domingo, na rinite, nas cólicas
    que anda sentindo. Pensou em fazer sexo só para ver se cairia no sono em seguida.
    Mas em seguida pensou que fazer sexo por este fim não chega a ser assim, desejável.
    Ou justo com ele. Para que pensar em justiça nessa hora?
    Quis em ler o jornal, mas ainda não havia chegado `a sua porta.
    Era cedo e tarde demais ao mesmo tempo.
    Assim a ansiedade foi se transformando num monstro.
    Enorme que sentado no sofá junto dela elaborarou
    listas mentais apropriadas `a uma noite de insônia.
    De compras.
    De amigos.
    De problemas.
    Dos livros que gostaria de ler.
    Das coisas que gostaria de fazer amanhã.
    No amanhã de todos.
    Dos escritores novos que admira.
    Dos amigos artistas que gostaria que ficassem mais perto.
    Da vida dos outros.
    De sua própria vida.
    Dos médicos. Hospitais.
    Ruas e avenidas.
    Das coisas que precisavam ser organizadas naquele lugar.
    Levantou e foi para cozinha.
    Ferveu um tanto d’água.
    Preparou um café puro assinando assim o divórcio com a
    noite tranquila.
    E um bolo.
    De fuba.
    Colocou no forno.
    E ficou ali olhando para o fogão
    40 minutos pensando que gostaria mesmo era de relaxar.
    Descansar. Ir na Pinacoteca bem cedo.
    Ver Matisse por lá.
    Mas ficou ali esperando o bolo assar.
    O tempo passar.
    E`as vezes, ouvia o barulho dele
    na cama, procurando por suas pernas.

  4. no jornal Folha de SP

    fsp

    24 de outubro 2009
    produção de Aline Prado

  5. Eu queria…

    170

  6. Ball´s na Folha de São Paulo

    folha de são paulo

  7. É festa!

    casamento

  8. Piscina

    piscina

  9. Escola

    Escola

  10. Acontece!

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lp

Apesar do nome, pouco sabe sobre música. É formada em Artes Plásticas pela FAAP. Pós-Graduação em Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural pela PUC-SP. Trabalha com moda desde menina - estilista.
Desenha poesias e gosta muito de escrever.

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