Atelier da lp

  1. a rotina.

    Pronto, viu só, nem doeu.
    Trocamos a fralda, agora vamos sentar aqui no carrinho.
    Não precisa chorar!
    Não! Não beba dessa água, sim?!
    Não! A grama não.
    Nem a areia, não pode enfiar na boca.
    Precisa por o tenis. Não quer passear?
    Não chore, a gente vai sair, ver o mar de gente que está chegando pra trabalhar.
    São sete da manhã, não vamos acordar mais ninguém, ok?!
    Diz, bom dia pra padaria.
    Bom dia aos cachorros e ao dono do bar.
    Daqui a pouco já será a hora de almoçar!
    Vem, vamos brincar.
    Ai, a mamãe precisa ir trabalhar…
    O que você quer? Não quer mais nada.
    Nem este brinquedo?
    Vem, vamos trocar a fralda.
    Xixi e coco. Nossa, quanto!
    Não quer mais brincar disso?
    Cadê a fraldinha da nenê?
    Quer um mamá?
    Vamos nos alimentar?
    Não, não jogue a comida no chão.
    Vem! Vai!
    Ai, cuidado! Caiu?! Não foi nada. Antes de casar sara.
    Deixa eu te dar um beijo.
    Vai, manda beijo.
    Agora para o vovô. Manda beijos pra vovó.
    Então, faz tchau vai.
    Assim óh:
    T C HA U.
    Ah, tá com sono?
    Quer dormir… Não?
    Ah, então é fominha. Ela está com fome.
    Não quer comer? Por que?
    Comer faz parte!
    Vamos no parque?
    Quem chegou?!
    Não, este baldinho é dele.
    Não, devolve a pá pra ela.
    Toma, pega aqui a sua bola.
    Não… Não pode jogar a bola nas pessoas.
    Machuca!
    Carinho, isso. Com cuidado tá.
    Ai, desculpe. Ela não sabe ainda brincar.
    Não destrua o castelo dos seus amiguinhos!
    Vamos cantar parabéns? Parabéns pra você,
    nesta data querida, muitas felicidades.
    Bate palmas vai… Muitos anos de vida.
    Eeeee! Vamos no balanço?
    1,2 3 e já!
    Que deliícia, mas que delícia…
    Ah, vomitou… Vamos lá tirar esta roupa.
    Trocar a fralda. Xixi e cocô. Quanto!!!
    Você está toda cheia de areia.
    Deixa a mamãe limpar.
    Vamos comer uma frutinha pra encher de novo a barriguinha.
    Prometo que não vou te balançar mais por hoje.
    Maçã? Não?
    Banana? Manga? Melancia?
    Nenhuma fruta te faz abrir a boca?
    Vale um danoninho. Hummmm…
    Que delícia, mas que delícia…
    Vamos voltar pra casa?
    Vamos jantar?
    O que tem na TV? O que temos pra hoje?
    Sopa de espinafre? Ervilha? Tomate?
    Quer rúcula? Quer experimentar?
    Não precisa passar o comida no cabelo.
    Não, olha só, entrou tudo no nariz.
    Limpa assim óh. Limpa a boquinha.
    Isso. Quer mais?
    Não quer mais?
    Não precisa chorar, calma.
    C A L M A
    Não precisa chorar.
    Calma.
    Vem, vamos tomar banho.
    Esta gostosa a água?
    Quentinha?
    Isso, bate as mãozinhas na água.
    Nossa, assim você molha toda a mamãe.
    E o banheiro inteiro.
    Nossa. Calma…
    Está na hora de ir ficando mais calma, tranquila…
    Vamos sair? Quer sair?
    Vem. Agora pomada, fralda, talco, massagem, carinho.
    Não precisa chorar…
    Olha a mamadeira chegando aqui.
    Aqui! Toma.
    Isso.
    Hummm…
    Hummm…
    Vomitou na mamãe?!!! Mas não tem problema.
    Olha, já passou. Viu só, já foi.
    Passou…
    Encosta aqui a cabecinha no meu peito e sonha.
    Dorme, amor.
    Dorme. Que amanhã tem mais.

    Pronto, viu só, nem doeu.

    Trocamos a fralda, agora vamos sentar aqui no carrinho.

    Não precisa chorar!

    Não! Não beba dessa água, sim?!

    Não! A grama não.

    Nem a areia, não pode enfiar na boca.

    Precisa por o tenis. Não quer passear?

    Não chore, a gente vai sair, ver o mar de gente que está chegando pra trabalhar.

    São sete da manhã, não vamos acordar mais ninguém, ok?!

    Diz, bom dia pra padaria.

    Bom dia aos cachorros e ao dono do bar.

    Daqui a pouco já será a hora de almoçar!

    Vem, vamos brincar.

    Ai, a mamãe precisa ir trabalhar…

    O que você quer? Não quer mais nada.

    Nem este brinquedo?

    Vem, vamos trocar a fralda.

    Xixi e coco. Nossa, quanto!

    Não quer mais brincar disso?

    Cadê a fraldinha da nenê?

    Quer um mamá?

    Vamos nos alimentar?

    Não, não jogue a comida no chão.

    Vem! Vai!

    Ai, cuidado! Caiu?! Não foi nada. Antes de casar sara.

    Deixa eu te dar um beijo.

    Vai, manda beijo.

    Agora para o vovô. Manda beijos pra vovó.

    Então, faz tchau vai.

    Assim óh:

    T C HA U.

    Ah, tá com sono?

    Quer dormir… Não?

    Ah, então é fominha. Ela está com fome.

    Não quer comer? Por que?

    Comer faz parte!

    Vamos no parque?

    Quem chegou?!

    Não, este baldinho é dele.

    Não, devolve a pá pra ela.

    Toma, pega aqui a sua bola.

    Não… Não pode jogar a bola nas pessoas.

    Machuca!

    Carinho, isso. Com cuidado tá.

    Ai, desculpe. Ela não sabe ainda brincar.

    Não destrua o castelo dos seus amiguinhos!

    Vamos cantar parabéns? Parabéns pra você,

    nesta data querida, muitas felicidades.

    Bate palmas vai… Muitos anos de vida.

    Eeeee! Vamos no balanço?

    1,2 3 e já!

    Que deliícia, mas que delícia…

    Ah, vomitou… Vamos lá tirar esta roupa.

    Trocar a fralda. Xixi e cocô. Quanto!!!

    Você está toda cheia de areia.

    Deixa a mamãe limpar.

    Vamos comer uma frutinha pra encher de novo a barriguinha.

    Prometo que não vou te balançar mais por hoje.

    Maçã? Não?

    Banana? Manga? Melancia?

    Nenhuma fruta te faz abrir a boca?

    Vale um danoninho. Hummmm…

    Que delícia, mas que delícia…

    Vamos voltar pra casa?

    Vamos jantar?

    O que tem na TV? O que temos pra hoje?

    Sopa de espinafre? Ervilha? Tomate?

    Quer rúcula? Quer experimentar?

    Não precisa passar o comida no cabelo.

    Não, olha só, entrou tudo no nariz.

    Limpa assim óh. Limpa a boquinha.

    Isso. Quer mais?

    Não quer mais?

    Não precisa chorar, calma.

    C A L M A

    Não precisa chorar.

    Calma.

    Vem, vamos tomar banho.

    Esta gostosa a água?

    Quentinha?

    Isso, bate as mãozinhas na água.

    Nossa, assim você molha toda a mamãe.

    E o banheiro inteiro.

    Nossa. Calma…

    Está na hora de ir ficando mais calma, tranquila…

    Vamos sair? Quer sair?

    Vem. Agora pomada, fralda, talco, massagem, carinho.

    Não precisa chorar…

    Olha a mamadeira chegando aqui.

    Aqui! Toma.

    Isso.

    Hummm…

    Hummm…

    Vomitou na mamãe?!!! Mas não tem problema.

    Olha, já passou. Viu só, já foi.

    Passou…

    Encosta aqui a cabecinha no meu peito e sonha.

    Dorme, amor.

    Dorme. Que amanhã tem mais.

  2. A espera.

    Tudo é diferente.
    Acordo cedo e seu travesseiro está entre as minhas pernas.
    Quis comprá-lo de você na noite passada e
    como não aceitou minha propósta, roubei-o na madrugada.
    O cheiro de café nos disperta.
    Você me enche de beijos.
    Faço cara de farta.
    Faminta.
    Diz bom dia para a barriga.
    Coloca minha música preferida e me da o jornal.
    Sem o caderno cotidiano. Percebeu que ele me deprime.
    Percebeu também que eu não tenho humor de manhã.
    Nenhum humor. Nem no fim do dia.
    O que é uma pena porque é justamente
    nestes dois horários nossa maior convivência.
    Você insiste comigo.
    Me deixa um dinheiro para o taxi.
    Simplesmente ignora o fato de que trabalho e que por isso,
    posso pagar pelo meu transporte.
    Com este seu dinheiro, de birra, compro uma Vogue qualquer,
    pago-me um café e no mínimo um mini doce.
    Sigo a tendência.

    Prefiro ir caminhando.
    Levo sua música.
    Não ouço nada além daquilo que me interessa.
    O trânsito propõe um novo rítmo.
    E para quem estava acostumada a correr todas as manhãs,
    caminhar parece um exercício bobo.
    Mas faz de mim uma mulher ofegante
    antes mesmo de terminar a Rebouças.
    Ainda assim, acho que vamos bem. Melhor!
    Eu preciso desse tempo para colocar os sentidos em ordem.
    Passo a passo tento não me sentir especial só porque estou grávida.
    Quero levar a vida normalmente. Como sempre fiz.
    E tento também não fazer os outros acharem
    você um bebê especial só porque é nosso.

    Posso te garantir, não somos nada demais além daquilo que nos propomos em ser.
    Cumprimos com nossas obrigações. Só somos brilhantes mesmo no amor.
    Exagerados!
    Não há como te faltar.
    Nem generosidade, porque temos de sobra.
    Pois bem, nada ha mais.
    Talvez eu devesse mencionar o talento do seu
    pai com instrumentos musicais.
    Mas prefiro o silêncio…
    Por vezes, queria que fossemos invisíveis.
    Nós três.
    Por medo. Zelo.
    Mas esquece. Agora sou mãe e estou no controle!
    Ouça aí nas profundesas do meu útero:
    _ Quem está no controle? Eu! Fique tranquila!

    Pode crescer sem preocupações.
    Me deixa disforme. Cheia de afeto.
    Sem vontade de sexo.
    O que espero que passe, afinal, acho bom te dar irmãos.
    As roupas estão mais justas a cada dia.
    Eu não ligo. Uso as saias sem fechar atrás.
    Corto os elásticos das calcinhas de algodão.
    Não abotoo o casaco.
    Como se diz “casa de ferreiro, espeto de pau”.

    O médico me alerta.
    Faz-me regras e às vezes promove encontros visuais
    entre nós com o ultrassom.
    É uma troca. E você é uma graça. Parece animada. Puxou o papai.
    O Dr. passou-me uma dieta.
    Proibiu os doces durante a semana. Não é piada.
    Disse que meus peitos vão cair se eu não usar um
    sutian de mãe sofredora que aperta minha alma.
    Eu tentei explicar à ele que meu peito vai cair de qualquer jeito.
    Que Caetano vai ter uma esposa de tetinha caída.
    E que não é por meus peitos que estamos juntos.
    Definitivamente, Caetano já pegou peitinhos muito melhores que os meus.
    E eu só quero ser uma grávida feliz.
    Já basta toda aquela ginástica com os biquinhos.
    Puxa de um lado, do outro, para cima, para baixo.
    Já basta a bucha/bruxa vegetal para tirar a sensibilidade dos mamilos.
    Chega de apertos. Toda crueldade tem limite!
    Ignoro também a recomendação das meias Kendall.
    Compreenda, ninguém precisa de mais pressão nessa vida!
    Já me cobro o bastante.

    Por não dar atenção devida aos amigos.
    Por não conseguir fazer tudo o que gostaria num dia.
    Nem comer os legumes, frutas e verduras que deveria.
    Por não ler mais, escrever mais, te ouvir sinceramente.
    Por não achar que mereço.
    Ou por achar.
    Por não querer que você me ache neurótica.
    Ou nem ligar.
    Por desligar o celular.
    Não responder sua mensagem. Não atender.
    Não ser a filha perfeita. Nem a mulher perfeita.
    Nem a mãe. O que dirá a nora…
    Enfim, por ter ainda que esperar!
    Como assim? Nove meses é uma eternidade!!!
    Parece que vida deu uma pausa.
    Pediu-me calma.
    E assim eu vivo a espera de te ver.
    Te carregar. Amar.

  3. Empurrando a vida com a barriga.

    bb
    Que mulher não sonha com o primeiro dia do ultrassom de seu primeiro bebê?
    Assim como acontecem nas novelas da TV,
    marido e mulher entram na sala do consultório.
    Ele segura as mãos dela e a médica,
    cheia de sabedoria, alisa com um objeto a barriga da mocinha.
    Não é lindo?
    Aí eles escutam o coraçãozinho do Bebê.
    A mamãe chora de canto, o pai segura as lágrimas e a médica sorri para os dois.
    Ah… Não é lindo?
    No meu primeiro exame desse tipo também achava que seria exatamente assim.
    Um sonho!
    Trouxe até minha mãe do interior para cá.
    Para acompanhar a emoção.
    Mas quando chegamos no laboratório
    resolvi ler o pedido de exame que dizia assim:
    ULTRASSOM INTRA VAGINAL.
    Levantei repentinamente da cadeira verde que ocupava da recepção
    e falei baixinho para uma das atendentes:
    _Isso aqui é por dentro?
    _É!
    Voltei para meu lugar com os olhos rasos d’água.
    _Não quero!
    _Não quer o que? perguntou Caetano.
    _Não quero nada enfiando dentro de mim.
    _Mas Luiza! Isso é normal.
    _Pode ser normal, mas eu não quero. Eu não vou fazer!
    Não adianta ficar me olhando assim. Nâo faço e pronto!
    _Mas Luiza, o que é que tem? dessa vez a minha mãe.
    _O que é que tem? Eu não quero.
    Não vou fazer! Venham vamos embora!
    Ninguém se mexeu. Só eu até a porta de vidro que me separava da rua.
    E minha mãe coitada, ficou sem fala assistindo ao meu peti.
    De certo, mal respirava ali no canto da sala para não me incomodar.
    Caetano bem que tentou pedir ajuda mas ela disse que não poderia se intrometer.
    Logo então, feita a confusão, uma auxiliar de enfermagem
    chamou pelo nome da mulher que estava conturbando a sala de espera local: eu.
    _Luiza Pannunzio.
    Joguei minha mochila na cadeira e fui caminhando,
    batendo os pés, pelo estreito corredor.
    Parecia uma menina mimada.
    Quando entrei na sala pediram-me que tirasse a calcinha.
    Ficasse quase pelada.
    Cadê o romantismo?
    Não sei.
    Enquanto me despia comecei a questionar a moça que com toda educação do planeta,
    depois que eu já estava deitada de pernas abertas, perguntou:
    __Não quer deixar para fazer outro dia?
    _Não! respondi secamente.
    Ela então colocou luvas e preparou o aparelho com a tal câmera para entrar em mim.
    Vestiu delicadamente uma camisinha nele e na pontinha do objeto encheu de gel.
    Pronto, eu estava prestes a sofrer o abuso.
    Seria mesmo tão necessário?
    Como foi que eu nasci, se na minha época não existia nenhum tipo de ultrassom?
    E como nascem os índios?
    Enfim, já com o objeto enfiado em mim a médica
    disse animada fazendo movimentos circulares com o mesmo:
    _Olha só, como é grande aqui dentro!
    _Só pode ser uma piada… resmunguei.
    Mostrou-me:
    _Está vendo aqui? Esta manchinha? Este é o seu filho ou filha!
    _Ah.
    Mas na verdade eu não conseguia entender nada daquelas imagens, nada.
    _Seu bebê apresenta movimentos corporais!
    _E isso é bom? Está tudo bem?
    _Sim… Está tudo perfeito.
    Eu não via a hora do exame acabar.
    Ao final, quando tudo já estava terminado e eu já estava vestida novamente
    com a calcinha toda melecada do gel lubrificante,
    pronta para levar minha barriga para fora, vi a impressão
    do que seria meu filho ou filha sobre a mesa da manipuladora.
    Era um bom motivo para reencontrar o pai e a avó que estavam lá fora
    e ser imediatamente absolvida da falta de maturidade que eles haviam assistido minutos atrás.
    Protagonista da história, prestes a ser reconsiderada uma pessoa equilibrada, agarrei com toda
    força a chance e perguntei bem feliz:
    _Ah, isso aqui eu levo?! Já com a tira de imagens nas mãos.
    _Não. Isso só na semana que vem. O exame você só vai retirar na semana que vem.
    Desiludida, devolvi o papelzinho e voltei para perto deles.
    Entramos no carro.
    _O que ela disse?
    _Que está tudo bem… Com o feto, de fato, está tudo bem.

    Ele media naquele dia 1 cm e dançava como o pai.
    Paramos para um café seguido da minha torta de nozes preferida.
    Empurrar a vida com a barriga ganhou outro significado naquele dia.

  4. 6:32h am

    Todos temos problemas. Somos doentes.
    Vivemos numa sociedade doente.
    Onde só não vale fazer de seu problema exceção.
    É preciso olhar ao redor e encontrar os semelhantes.
    Aqueles cujos problemas combinam com os seus.
    E em cada fase de sua vida, mudam os problemas.
    Vive melhor quem melhor lida com eles.
    Por vezes, me sinto só com os meus.
    Engano. Numa tentativa de me fazer especial.
    Seria fácil se não fosse doloroso.
    Sobressair pelo desgosto.
    Mas, logo percebo que somos todos doentes
    e de louco todos temos um pouco.
    Volto ao mesmo lugar que você, você e você.
    E enquanto busco pontuar as diferenças
    percebo as semelhanças problemáticas entre nós.
    Isso não me traz alívio nem angustia.
    Apatia não seria a melhor palavra para designar.
    Mas é quase isso.

  5. Pronto. Socorro!!!

    No início da noite de sábado sentiu a garganta doer.
    Os olhos lacrimejarem e a cabeça latejar.
    A amigdalite que há mais de um ano não visitava aquele corpo
    resolveu aparecer assim mesmo, sem ser convidada.
    Acostumada às queixas que ela lhe trás decidiu
    passar a noite no hospital. Um amigo recomendou:
    _Procure um hospital bem legal, afinal é sábado.
    Escolha um bem agitado para te alegrar.

    Fez sorrir os lábios doloridos dela.
    Na vila Mariana, com a carteirinha do plano de saúde
    numa mão e a carteira de motorista vencida na outra,
    sentou na sala de espera. Fitando ora a televisão,
    ora a recepcionista, ora o nada.
    Não via o momento de entrar por uma daquelas portas
    descritas como consultório 1 e consultório 2.
    Deram-lha uma senha. Era número 100.
    Olhou no placar que marcava 94.
    Resolveu relaxar, não havia ninguém ali,
    portanto os números nada representavam.

    Não calçava sapatos, preferiu havaianas no lugar.
    Deixou o soutien em casa. Vestiu um tecido fino
    e solto no corpo, cor de rosa, godê, cheinho de flores miúdas.
    Logo chegou, apitou a sua vez. Número 100.
    Levantou. Entrou no consultório número 2
    e do outro lado da mesa simples sentado
    numa cadeira de plástico estava o pobre plantonista de sábado.
    Deu dó.
    Ele sem olhar para cara dela perguntou:
    _Em que posso te ajudar?
    _Estou com dor de garganta.
    _Teve febre?
    _Não. Acho que não.
    _Deixe-me ver… Abra a boca assim oh.
    _Ahhhhh…
    _Não tem pus ainda. Tome tylenol,
    de 6 em 6 horas e quando piorar você volta.

    O jovem médico então, receitou o medicamento
    rapidamente em um papel amarelinho que até
    combinava com ela e ofereceu a porta de saída.
    Muda, saiu do consultório. Sentiu-se enganada.
    Assinou tantos papéis do plano de saúde antes de entrar
    naquela simples saletinha que no mínimo esperava sair de lá
    com uma receita de antibiótico debaixo do braço.
    Sentiu ódio do médicozinho com cabelos de gel arrepiados
    como se tivesse 16. E quantos anos tinha?
    Foi triste para farmácia e de lá direto para casa.
    Sofreu na noite seguinte. De dor e de febre.
    Mas era domingo. Não havia muito a fazer a não ser descansar.
    Dormiu por mais de 15 horas. Acordou apenas para se alimentar.
    Segunda feira era dia de outra consulta.

    O ginecologista novo que arrumara meses atrás.
    Sim porque, para ter uma consulta é preciso
    marcar com muita antecedência.
    Não existe horário, ninguém tem tempo para você.
    Mesmo que pague por isso.
    Ela havia comprado alguns minutos de um ginecologista só para ela.
    Na Angélica. Que feliz!
    Chegou no horário marcado – 10:15h.
    Com a calcinha mais nova e a garganta doendo sem parar.
    Tomou litros d’água antes de fazer todo o cadastro burocrático
    e assinar todas as vias que o plano de saúde obriga-a.
    Mas o Doutor havia tido um imprevisto, estava atrasado,
    ainda nem havia chegado. Foi preciso aguardar.
    Com muita calma. Numa sala de espera cheia de grávidas.
    E a certa altura ela pensou que teria que deixar todas
    aquelas barrigudas passarem na sua frente, em sinal de respeito.
    Assim como faz nos bancos, ônibus e afins.
    Mas nem foi preciso dizer nada, a secretária do doutor se
    encarregou dessa gentileza.

    Assim, por último entrou no consultório – 12:40h.
    Aparentemente tensa. Porque mostrar a xoxota para qualquer um
    não é a coisa mais fácil desse mundo.
    Ele, um senhor gordo beirando os sessenta,
    percebendo a situação constrangedora que invadia a face dela disse:
    _Esta grávida?
    _Não.
    Silêncio.
    Ela pode reparar que no cotovelo dele
    tinha aquela mesma doença que aflige seu pai.
    Erisipela. Achou que era esse o nome.
    Sentiu então um estranho conforto
    esgotado logo, na próxima questão:
    _Tem menstruado normalmente?
    _Sim.
    _Tem alguma alergia?
    _Não.
    _Caso de câncer na família?
    _Minhas avós, mas elas já têm quase 80 anos.
    _E por isso vc acha normal elas terem câncer?
    _Acho que uma hora todos nós morreremos disso.

    1 silêncio, dessa vez dela.
    1 sorriso dele.

    _Olha, aqui pela sua ficha
    (que constava endereço, estado civil e telefone)
    você é uma pessoa absolutamente normal e saudável.
    Vou te pedir uns exames, mas, não precisa ter pressa em realizá-los.
    Ela logo percebeu que ele não iria examiná-la.
    _Uma última pergunta, sente caroços nos seios?
    _Não. Eu não sinto.
    Seria acusada de assédio se propusesse ao velhote
    ginecologista um exame detalhado de suas mamas?
    Sim porque, era para isso que tinha ido ao médico.

    Continuo encarando-o e sem força soltou na voz rouca:
    _Eu não sou super saudável. Tenho amigdalite.
    _Hummm…Deixa-me ver. Abre a boca. Nossa, vc precisa de um antibiótico!
    _Eu sei.
    _Procure um otorrinolaringologista.
    Disse o velho Doutor num tom bem baixinho.
    _Farei isso.

    Depois do carnaval…
    Pensou ela.
    Quando todos voltarem a trabalhar.

  6. Abala-me.

    Você.
    O Haiti.
    Os políticos.
    As histórias que vejo na TV.
    A chuva castigando a cidade.
    A falta de compreensão entre nós.
    Falta de afeto.
    Meu tanto faz.
    Nosso faz de conta.
    As contas.
    1\3.
    Fé em quê?
    Folha de São Paulo.
    Sapatos que machucam meus pés.
    Fome.
    A reforma.
    Os filmes.
    As pessoas que moram na nossa rua.
    Saudade da minha família.
    As vantagens de estar onde estou.
    O peso.
    Minha escrivaninha.
    O vinho tinto.
    A droga da gaveta.
    O tempo e a falta que ele me provoca.
    O amor.
    Diálogos entre pais e filhos.
    Um domingo qualquer no parque.
    Silêncio.
    As garrafas pet boiando no rio.
    Planos.
    Impaciência.
    As cobranças de todos.
    As poucas horas de sono.
    Sexo.
    Música nova.
    Pernilongo.
    Arte.
    Imagem.
    Trânsito.
    O sol fazendo-me sardas.
    Disfarces.
    Quando me calo.
    Quando não fala.
    Preguiça de viver o que é previsível.
    Nenhuma vontade.
    1001 oportunidades.
    Seu mundo.
    O teatro das boas maneiras.
    Facilidades.
    As eternas conversas comigo mesma.
    Descontos para os outros.
    Curiosidade.
    Livros intactos na estante.
    Os excessos.
    Sofro com eles.

  7. meamas?

    Se te amo?
    Eu me encosto.
    Te acho no meio da noite.
    Te imploro por tandrilax.
    Um copo d’água.
    Beijos na boa logo que acordo.
    Concorda que te amo?
    Te chamo. Proclamo! Reclamo.
    Meu bem, amor, te quero, vem.
    Te amo por inteiro
    Pelo avesso.
    De cima embaixo.
    Te amo de lado.
    Do teu lado.
    De TPM. E aí é que vc
    mostra que também me ama.
    Me aguenta.
    Faz carinho e espera passar.
    Sábia decisão de só que sabe amar.

    (resposta ao e.mail de agora pouco)

  8. Lugar Comum.

    Passou quase um ano desde o último contato.
    Onde não houve amor.
    Por isso, era preciso encontrar alguém que
    combinasse com ela.
    Pré-requisito, disposição à amar.
    Por que?
    Acredita nele.
    Não no dele.

    Para ela, amor é sinônimo de cuidados,
    bons tratos, carinho, sexo, amizade, cumplicidade.
    Quer dizer, para aquela guria, tudo isso junto significava amor.

    Conclusão, a união dali desfeita foi por conta
    da pele deles que combinava.
    Simples assim.
    O cheiro deles era bem conveniente.
    A atenção jamais fora dispensada.
    Mas não era amor.

    Nem sempre é ou se torna.
    Aliás, raramente.
    Na maior parte dos casos, resulta em nada.
    Quando não em ódio, depressão, abandono.
    O deles foi o pior.
    Acabou com uma palavra.
    Saudade.
    Por preferirem manter distância.

    Um tropeço.
    Muitas dúvidas.
    Ela se achava mal interpretadas enquanto tentava entender
    o que vinha da direção daquele um.
    Louca.

    Perderam-se no tempo.
    Distraíram-se com os outros.
    Estudaram todas as inúmeras possibilidades.
    Isso leva tempo…
    E quando de novo encontraram-se,
    inevitavelmente, era tarde.
    Viraram uma história qualquer.

    Depois de meses à procura daquilo que acharam
    que um dia sentiram um pelo outro em outros,
    descobriram o engano.

    Despistaram a infelicidade com drogas,
    amigos, bebidas e música bem alta.
    Para não haver diálogo. Só sexo. Sem envolvimento.
    Como se isso fosse possível.
    “Aqui, só há troca de fluídos!” avisava ele.
    Ou nem isso.

    Engajaram-se em outras turmas.
    Encaixaram-se em outras pessoas.
    E acabaram exaustos.
    E com saudade.

    Desviando deles mesmos.
    Por não haver outro jeito.
    Pois não sabiam lidar com o fomento de dentro do peito.
    O mesmo que fazia as pernas dela tremerem ao vê-lo passar.

    E ela o viu passar, uma, duas,
    5 mil vezes bem na sua frente.
    Até ele passar despercebido.
    Alguém a cutucar pelas costas e dizer
    “Viu quem está ali?!”.
    Mas era tarde.

    Não é triste?

  9. Equilíbrio.

    Estava disposta a começar este texto dizendo
    que meu ano foi de perdas. Mas não posso.
    Porque também ganhei muitas coisas.
    Conquistei por demais.
    Então, foi o ano do empate.

    .

    Mas foi mais um ano difícil.
    Meus amigos, ao lerem esta frase dirão:
    “Ai Luiza, como você é dramática!”.
    Mas são eles mesmos testemunhas do meu aperto no peito.
    Muitas vezes por causa da velocidade do tempo.
    Perdi a conta das minhas reclamações ao telefone:
    “O ano está acabando!” ou “Eu nem vi este mês passar!”.
    Acho que desde março esta frase é minha.
    Agora, de fato, restam apenas poucos dias para o ano virar.
    E nada da minha angústia passar.
    E depois que chegar janeiro,
    sou do tipo que provavelmente fará
    contagem regressiva para o final do ano que vem.
    Acreditem ou não…

    .

    2009 foi dificílimo.
    Igual ao ano passado.
    Parece de praxe. E talvez por isso anseio os dias passarem.
    O que me mantém sã é que papai vive dizendo
    o tempo inteiro que a dificuldade é geral.
    E quando ele diz isso, não sei se a dificuldade é de todos
    ou em todos os setores. Então, mantenho-me ereta.
    Mal durmo. Alerta. Disposta a reagir. À socos e pontapés!
    As perdas me ensinaram a cuidar daquilo que é meu.
    E lutar por aquilo que quero para mim.
    E como sou do tipo que não abandona o barco,
    apesar de saber nadar…
    Eu chego ao final do ano.
    Assim, meio acabada, mas chego!

    .

    Você é como eu?
    Se desespera diversas vezes nos
    365 dias que se seguem novinhos em folha para nós?
    Diga que sim e eu não me sentirei tão só.

    .

    Sou um eterno descontrole. Bebendo na insatisfação
    alheia, não percebo quando a birra é comigo.
    Tendo por dentro uma alegria abobalhada, ingênua, plácida;
    sou emocionalmente abalável. Isso não me faz especial,
    apenas igual aos demais. O que me estraga
    é a minha exigência. Comigo principalmente.
    Flácida de coração e dura na razão, vivo a batalha:
    tentando equilibrar corpo e mente.
    Ou seja, empatar comigo mesma.

    .

    Mas a tamanha dureza exigida por mim de mim este ano
    fora quase insuportável. Fez a vida
    na maior parte do tempo mais pesada do que ela realmente é.
    Desabei. Chorei. Fiquei tonta de tanto fazer conta.
    Trabalhei, trabalhei, trabalhei. Nossa, trabalhei demais este ano!
    Ganhei experiência. Porém não me satisfez.
    Amei, amei amei. Nossa como amei Caetano!
    Um amor enorme. Descrito. Desenhado. Dito.
    De acordo com a revisão ortográfica.
    Aliás, fiquei puta da vida com a tal revisão.
    Aproveitei para rever meu todo.
    Tentei me organizar. Mas só perdi tempo.
    E quanto tempo…
    No trânsito, no banco, na fila do Pão de Açúcar.
    No café da manhã. Em cima da minha mesa de trabalho.
    Caos.
    Não aprendi a lavar as roupas.
    Sujas.
    Faço o branco virar amarelo e o preto virar cinza.
    Como mágica.
    Perdi peso, depois ganhei outra vez.
    Mas ganhei mais do que perdi e por incrível que pareça,
    isso me coloca em desvantagem. Principalmente na hora da foto!
    Eu perdi meu foco em meados de julho.
    Meu RG e a carteira de motorista.
    Esta por conta das multas que ganhei!
    Perdi a licença para dirigir, digerir.
    E depois, tudo bem porque bem no finalzinho roubaram meu carro.
    Roubaram-me também um Moleskine
    cheinho de pequenas poesias.
    Minha paciência, minha coerência e a tolerância.
    Sumiram com estas coisas de mim.
    Talvez eu não as merecesse.
    No entanto, em troca ganhei uma gastrite,
    uma incrível fantasia para disfarçar-me em dias tristes
    e promessas de “não vou permitir”.
    Tudo em vão, só para gerar empate!

    .

    Ganhei diálogos com minha irmã e meus pais.
    Conversas necessárias, de gente grande.
    Palavras de apoio, de amor e de paz.
    Das minhas avós ganhei mais tempo, vida, devaneio.
    Do meu irmão ganhei a ausência,
    algumas palavras mudas e juras a processar.
    Quer dizer, eu o perdi por um tempo. Sofri. Chorei.
    Fez-me perder o apetite. Mas depois, com os meses passando,
    resolvi dar à ele dias. Quantos quiser ou achar necessário.
    Estas coisas que a gente faz esperando algo em troca,
    mesmo sabendo que não devemos por nada esperar.
    Mesmo sendo Natal…
    Perdemos todos nós por enquanto.
    Isso significa empate técnico.

    .

    Dos meus tios e primos ganhei a saudade e eles não
    ganharam nada de mim. Desculpem-me,
    mas a culpa é do tempo. Quer dizer, a falta dele.
    Vale salientar que pensei em todos vocês
    a maior parte do ano com afeto?
    Se não, vale dizer que perdemos de nossa própria companhia?!
    Perdi também Maria, a faxineira, porque de um tempo
    para cá, só ela ganhava. Fiquei tão chateada!
    Mas vão-se os anéis e todos os trocados que
    costumava deixar pela casa e ficam os meus dedos
    e um coração aos pedaços.

    .

    Ganhei uma picada de vespa que me fez perder o humor.
    Muitos novos clientes e amigos. Visitas na minha lojinha!
    E ideias que viraram traços em nanquim preto.

    .

    Do lado de cá, presentes se fizeram.
    Os amigos que me acompanham há anos.
    Nos reunimos, jantamos, dançamos.
    E mais uma família enorme.
    Com direito a duas sogras e dois sogros.
    Não é para qualquer um, né?!
    Ganhei uma aliança em sinal do seu amor.
    Uma casa. Planos.
    Ganhei a ansiedade por fazer meu ventre vingar.
    Uma vontade louca de fazer netos.
    E o melhor, ganhei um avô.
    Logo eu que nunca havia tido um avô.
    Não tive dúvidas em querê-lo para mim.

    .

    Aliás, não ganhei dúvida alguma este ano.
    Só certezas.
    A de que estamos no caminho certo.
    De que nos amamos. Nos ajudamos, compartilhamos.
    Trabalhamos muito. Mas também rimos, choramos.
    Fomos ao cinema. Ficamos de mãos dadas.
    Em todas as horas, nos apoiamos. Telefonamos.
    A gente viveu junto mais este ano.
    Foi difícil, eu sei. Porque houve perdas e desistências.
    Mas tais dificuldades nos uniram.
    E não existe nada maior nem mais importante
    do que esta união entre nós. Só assim somos fortes.
    Vejo-me cheia de disposição para enfrentar o ano que vem.
    Feliz e às vezes triste. É assim…
    Em perfeito equilíbrio.
    Que venha 2010!

  10. Na insônia dessa noite:

    Perguntou-se o que levaria para uma ilha deserta.
    Esta era uma pergunta recorrente em sua adolescência.
    Então, enumerou 3 coisas dispostas assim,
    de acordo com seu grau de importância:

    1. sorine, descongestionate nasal
    2. OFF, matador de insetos
    3. bloqueador solar

    Mas e Caetano?
    Ah, ele não merece…

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lp

Luiza Pannunzio é formada em artes plásticas pela FAAP. Fez pós-graduação na PUC – Comunicação com ênfase em Jornalismo Cultural. Desenhadora. é criadora da personagem Bebê da Cabeça Quadrada e também da menina que carrega um laço gigante na cabeça. Gosta muito de escrever nas horas vagas. Mas que horas vagas? Tem dois filhos – Clarice e Bento e com eles coleciona histórias. Com seu MARIDO junta palavras num tumblr que atende por “diálogos domésticos”. Confecciona roupas incríveis e outros mimos sempre pensando em você. Duvida?! Quer ver?! Espie tudo por aqui...

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